Home Data de criação : 08/11/22 Última atualização : 08/11/22 00:41 / 1 Artigos publicados
 

As imagens da terra na formação da sociedade brasileira  escrito em sábado 22 novembro 2008 00:41

 

O imaginário da terra na formação da sociedade brasileira

Por: Ana Cecília dos Santos

Resumo

Mal iniciava a colonização e o padre Manuel da Nóbrega já reclamava do desprezo pela cidade, pela coisa pública: “Não querem bem a terra”. (Teatro dos Vícios, p.51) De acordo com Sergio Buarque de Holanda, no início da colonização portuguesa não havia o objetivo de estabelecer um local de moradia e permanência. A intenção do colonizador português era extrair riqueza, explorar a terra e ir em busca de terras mais férteis. Ele utiliza a categoria tipo ideal de Weber para falar do tipo trabalhador e o tipo aventureiro. O trabalhador “enxerga a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar”. O aventureiro: “Seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore” e acrescenta que o aventureiro tem as seguintes qualidades “audácia, imprevidência, irresponsabilidade, vagabundagem”.(Raízes do Brasil, p´.44) Sérgio Buarque atribui ao português o tipo aventureiro e expõe que a colonização se deu através da ânsia de prosperidade sem trabalho, de riquezas fáceis e com desleixo pela terra. Já Gilberto Feyre em Casa Grande e Senzala diz que o Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. (p.55).

Assim como o desleixo pela terra se deu também o desprezo pelo os filhos da terra. A missigenação aconteceu desde o início da entrada dos portugueses no Brasil, resultando numa mistura de raças e de filhos “bastardos”, pois muitos eram frutos de relações advindas de estupros ou a mulher não era considerada a esposa. Como  expõe Gilberto Freyre: diga o ditado: branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar”. (p.38).

De 1500 a 1530 com a chegada dos portugueses ao Brasil não houve colonização, pois não se fixaram a terra, somente com as invasões de holandeses, franceses e ingleses o rei de portugal se viu obrigado a enviar em 1530 uma primeira expedição visando colonizar o Brasil e tinha como objetivo expulsar os invasores e iniciar o cultivo da cana-de-açucar.

A colonização do Brasil iniciou a base da exploração do trabalho escravo dos negros vindos da África, principalmente após a monocultura de cana-de-açúcar. Cultivavam a terra a fim de enviar a cana-de-açúcar para portugal, como diz Gilberto Freyre (p.59)  privando a população colonial de um bom regime alimentar.Os negros, trazidos do continente africanos para trabalhar nas lavouras eram transportados dentro dos porões dos navios negreiros. Devido péssimas condições deste meio de transporte, muitos deles morriam durante a viagem. Após o desembarque eles eram comprados por fazendeiros e senhores de engenho, que os tratavam de forma cruel e desumana

A história econômico-social brasileira ocorreu com uma grande diferenciação desde o nascedouro. No topo da sociedade estava o senhor de engenho, abaixo trabalhadores livres e funcionários públicos e na base da sociedade o trabalho escravo de negros. Os índios apesar de serem forçados a trabalhar não se adaptaram ao trabalho escravo nas lavouras e eram protgidos pelos jesuítas. Ficou  o negro a principal força de trabalho. A mulher exercia os cuidados da casa e dos filhos. Era uma sociedade partriarcal em que o homem, senhor de engenho, mandava na terra e estabelecia o seu domínio sobre os corpos.Existia a figura dos bandeirantes exploradores territoriais que eram enviados por senhores de engenho donos de minas e comerciantes e foram os responsáveis por desbravar boa parte do território brasileiro capturando indios,  pedras e metais preciosos. 

. Em treze de maio de 1888, com a Lei Áurea  foi dada a libertação da escravatura para os negros. A revolução indústrial na Inglaterra repercutiu no Brasil, as usinas substituíram os primitivos engenhos e como conseqüência diminuiu o número de escravos nas lavouras. Também surgiram o desejos de surgimento de industrias nas cidades e com isso o governo brasileiro fazendo a vontade da Inglaterra, foi aos poucos libertando os escravos e oferecendo oportunidade de imigrantes europeus virem trabalhar nas lavouras de café e o resultado foi que deixou os negros sem apoio e sem trabalho.

A imigração oficial começou no início do século XIX, os principais colonos eram italianos, viam para o Brasil com a esperança de melhores condições de vida, pois a situação política e econômica na Itália não estavam boa e eles viam para o Brasil com esperança de ter um pedaço de terra. A legalização da posse de terra e seu registro era obrigatório, porém a Lei da Terra dificultava a compra, pois os preços eram elevados, deixando para o imigrante a solução de trabalhar nas fazendas de café.

 Os primeiros imigrantes estabeleciam um contrato de parceria com o dono da terra, cuidavam dos cafezais e dividiam o lucro e os prejuízos com o fazendeiro, recebiam um pequeno terreno para servir de plantação de subsistência. Eram proibidos de sair das fazendas e geralmente faziam compra no armazém da propriedade endividando-se cada vez mais. O colono pouco a pouco se via como escravo e aquele sonho de encontrar no Brasil uma esperança de possuir um pedaço de terra escorria pela mão como areia. Na época não havia nenhuma autoridade que os apoiasse. Como expõe Calligaris (p. 28,29)

A trajédia é a descoberta que a autoridade que assinou, por intermédio, o contrato é a marionete inconsciente do colonizador que pede corpos para explorar. Tanto mais que o contrato, por ser contrato e engajar o colono, já antecipava seu sonho de reconhecimento de cidadania.

 

Dessa forma aconteceram as relações sociais que fundaram a sociedade brasileira, semelhante a forma que cultivaram a terra: sem identificação, sem sentido no cultivo e amor ao pedaço de chão. Brancos e negros foram expostos a uma exploração desumana e sem nenhum tipo de controle ou supervisão por parte dos governantes. O processo histórico que se deu desde a chegada dos portugueses a esta terra ocasionou numa falta de compromisso e identificação com o trabalho na nova terra conquistada. Isso aconteceu pela omissão ao apoio que os imigrantes vieram buscar e não encontraram. As leis e a autoridade não protegiam o camponês e muito menos aos negros que foram libertados e ficaram sem rumo.  Foi somente na primeira metade do século XX que as primeiras leis trabalhistas foram criadas.

 

Pátria pai 

Durante a história do Brasil aconteceram muitas lutas do povo brasileiro que buscaram reinvindicar dignidade, mas as principais decisões nos destinos do país foram tomadas sem a participação efetiva do povo, até a independência do Brasil foi motivada por minorias, a massa do povo ficou até mesmo indiferente. Como um povo pode ter dignidade em ser brasileiro e ter amor a terra e a pátria se não existe uma identificação com a terra e não participa das causas importantes que mudariam o país? Segundo observa Sérgio Buarque:

É crioso notar-se que os movimentos aparentemente reformadores, no Brasil, partiram quase sempres de cima para baixo: foram de inspiração intelectual, se assim se pode dizer, tanto quanto sentimental. Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase sempre de surpresa: a grande massa do povo recebeu-as com displicência, ou hostilidade. (Holanda,1996,160) 

 

Pátria do latim “patris” representa terra paterna, a terra natal ou adotiva de um ser humano, que se sente ligado por vínculos afetivos, culturais, valores e história. Comparo a pátria com um pai, isto é, uma figura que simboliza proteção e apoio que fornece um nome e uma filiação, uma identificação, um sentido, uma força para atuar no mundo. O colono veio em busca de uma pátria (pai) que os acolhessem, os negros foram arrancados de suas raízes, de sua terra que lhes davam identificação e força e ambos conheceram a escravidão. Esse pai foi omisso e cruel e não deu força ao filho.  Como explica Contardo Calligaris (p.29):

Esta tragédia, inscrita para sempre na memória do colono brasileiro, é um outro jeito de dizer o que já apontei: que a herança do colonizador para o colono, que pede um novo nome ao novo pai, é um significante nacional que implica uma decepção definitiva: queres um nome? Eis o pau-brasil, dejeto da mesma exploração que prometo ao teu corpo. Queres um significante nacional que te afilie? Eis o Brasil e serás brasileiro, o que, pelo menos até o século XIX, como se sabe, não designa filiação nenhuma, mas é o nome comum de quem trabalha, explorado, na exploração do pau-brasil.    

Podemos observar que (comentarum pouco a parte de cima e introduzir a questão do pai) .Para ilustrar melhor a relação da sociedade brasileira com a terra vejo a necessidade de lembrar algumas passagens contidas em relatos mitologicos, como também em aspectos da psicologia Junguiana com o intuito de enteder também o arquetipo (idéias elementares que poderiam ser chamadas idéias “de base”) que representa a terra.

Na lenda do rei Artur, os cavaleiros participavam junto com o rei das decisões e as “reuniões” aconteciam em volta de uma távola redonda simbolizando a partcipação de todos no poder. Essa lenda projeta para quem a lê um ideário de justiça e sabedoria.  Viviam uma sociedade  integrada, pois o círculo representado pela távola redonda passa uma idéia de integração e volta para o self da organização social do reinado, buscavam no rei a autoridade, não uma autoridade que destruía, mas que integrava e pelo o rei eles eram capazes de oferecer a própria vida. Esse mito é revelador para entender o sentido das ações e que forma o processo de integração na fonte do amor pela pátria, sensação de integração na sociedade. A autoridade do rei é legitima e necessária, pois o seu reinado começou a partir de um grande mérito que foi retirar a excalibur, a espada mágica, encravada na pedra. Só o legitimo rei  conseguiria tal proeza, somente o filho do rei Uther poderia fazer isso. Uther foi morto por seus inimigos e antes de morrer encravou a espada mágica, excalibur, na pedra e disse que somente o legitimo rei poderia retirar.

No Brasil, durante sua histórica o processo de integração foi bem diferente. Como foi dito a independência do Brasil aconteceu sem a efetiva participação do povo e o novo imperador do Brasil foi D. Pedro I. que além de  não ter nascido no Brasil não terminou seu reinado aqui, abdicou de sua coroa e se viu forçado a partir para o estrangeiro para lutar pelo trono da filha mais velha, usurpado por seu irmão, o infante dom Miguel em Portugal.

Diferente do mito Arturiano o povo brasileiro não encontrava no rei identificação alguma, não havia uma legitimação “heróica”. Os governantes, claramente dependentes das decisões de outros reinos como Portugal e Inglaterra  não estavam muito ligados a história e a vida cotidiana no Brasil. “Os brasileiros ficaram despatriados”.

 

MÃE TERRA

Para falar do arquétipo da terra escolhi um mito grego que representa o feminino na psique humana, a partir dessa idéia busco entender como esse aspecto permite criar um sentido de amor pela terra e como a partir da colonização os portugueses, os negros, os imigrantes não se envolveram com o cuidado na nova terra por ela ter representado apenas uma mercadoria ou fonte de exploração do trabalho. Entender como o catolicismo que trazia o medo do demônio enfraquecia a visão de que a terra tinha um significado maior para os indígenas. Para eles a terra como toda a natureza estava investida de um significado transcendente e religioso além de ser fonte de sua vida cotidiana.

A princípio, de Gaia nasceu Urano ou o Céu, que uniu-se a ela gerando os gigantes, feios, violentos e poderosos Titãs, os Titânides, incluindo Cronos, o Devorador Pai do Tempo. Urano não tolerava os filhos e logo que nasciam, os empurrava de volta para dentro do útero, para o fundo da Terra Mãe, onde estagnavam pela ausência de luz, atividade e liberdade. Finalmente um deles, Cronos, foi secretamente removido do próprio útero da Mãe Gaia e quando o Pai Urano desceu para cobrir Gaia, esse filho titânico rebelde e irado castrou-o. Depois libertou seus irmãos e irmãs e, com isso deu início à era dos Titãs. (www.rosanevolpatto.trd.br/deusagaia)

 

Este é o mito fundador grego, gaia a mãe terra é o aspecto feminino passivo, receptivo que envolve os mistérios da vida e da morte, seus filhos nascem de gaia e a gaia retornam. É a mãe geradora de tudo, é o local de onde tudo vem e tudo volta. Gaia a mãe terra foi considerada a profetiza do centro de adivinhação da Grécia antiga, o Oráculo de Delfos, foi considerado o umbigo da terra e fonte de sabedoria da e da humanidade. Gaia era considerada ser de onde todas as criaturas brotavam, mas sua adoração foi substituída pala adoração a outros deuses.

Dionísio representa o aspecto feminino, o deus da terra, da fertilidade da terra e da mulher, da vegetação, é também conhecido como o deus do caos, do inconsciente, da transformação, da loucura e do êxtase. Não era considerado um deus político nem voltado para proteção da polis, a representação desse deus põe em questionamento valores, devido ao seu caráter de irracionalidade ele vai contra a ordem política social e religiosa. Os rituais dionisíacos eram realizados principalmente pelas as bacantes, mulheres.  A rainha aparecia mascarada, o uso da máscara simbolizava a transfiguração do interior, ela era considerada a esposa de Dionísio, representado por um sacerdote, também usando máscara e os dois iam para a residência real realizar o casamento nupcial, a fecundação. Através do vinho e das danças os bacantes tentavam chegar ao êxtase, isto é, sair de si buscando a união total com o deus, se livrando das repressões e recalques, buscando a dissolução da personalidade. Como observa Junito Brandão (p.140): Dionísio retrataria as forças da dissolução da personalidade: a regressão as forças caóticas e primordiais da vida, provocada pela orgia e a submersão da consciência no magma do inconsciente. O arquétipo da terra está inevitavelmente ligado a esse mito de Dionísio, assim como a mulher e as forças do inconsciente.   

  O arquétipo da terra também está ligada ao arquétipo do céu e um complementa o outro. A terra é pesada, escura, feminina e passiva. O céu é leve, claro, masculino, ativo. Com o decorrer do processo histórico, durante a idade média e com o catolicismo, as imagens da terra eram negativas, assim como a imagem da mulher. A parte inferior da alma pertencia a terra, eram lá que estavam os demônios. Muitas mulheres nessa época eram queimadas na fogueira como bruxas, bastavam não seguir as imagens que representavam a mulher como a virgem Maria, uma figura sem sexualidade. A mulher representava os instintos, sedução e pecado. O deus, homem estava no céu e era lá que estava à salvação e com isso a própria natureza humana era considerada ruim. A depreciação e a hostilidade com a terra era também uma forma de repulsa a si mesmo. A colonização do Brasil foi feita pelo catolicismo, de acordo com Gilberto Freyre: o catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade. (p.56) e apesar do povo reinventar seu cotidiano burlando as regras impostas pelo colonizador europeu, a inquisição enchia de medo e terror vendo o diabo em todas as partes do Brasil. Como expõe Hoornaert (p. 140)

 

Os jesuítas e sua concepção européia altamente demonizada fizeram com que a idéia do mal se tornasse insuportável. Para eles, a alteridade da cultura indígena era demoníaca a terra em que evoluíram as hostes dos servidores de satanás. Em conseqüência, sempre consideraram as religiões de indígenas e africanas como aberrações satânicas.

   Os índios filhos dessa terra eram catequizados pelos os jesuítas e se enchiam de medo com a figura do diabo, além de serem depreciados e tidos, pelo menos no início da colonização, como aberrações satânicas. A religiões africanas eram praticada as escondidas ou sofria alterações para ser aceita, pois era considerada praticas demoniacas.

 Os negros escravos que tratavam a terra não enxergavam nela fonte de força e raiz da suas vidas, pois o produto da terra servia aos brancos e a terra para eles era local de exploração, por isso as divindades africanas invocadas não estavam ligadas a agricultura e sim a justiça e a guerra. De acordo com Hoorneart (p.94)

Para pedir fecundidade às mulheres se, na terra do cativeiro, elas geravam bebês escravos? Como solicitar boas colheitas numa agricultura que beneficiava os brancos, que se voltava para o comércio externo e não para a subsistência? Mais valia pedir-lhes a seca, as epidemias destruidoras de plantações, pois colheitas abundantes acabariam se traduzindo em mais trabalho para o escravo, mais fadiga, mais miséria. A primeira seleção operada no seio da religião africana colocaria de lado as divindades protetoras da agricultura, valorizando, em contrapartida, as da guerra – Ogum –, da justiça – Xangô -, da vingança – Exu.

 

Como foi dito acima a figura da mulher era vista como demoníaca e na história do Brasil homens e mulheres foram levados para inquisição e punidos por práticas que não condiziam com as leis da igreja católica. As mulheres e a terra eram exploradas e violentadas no corpo e na alma. Os portugueses lançaram-se ao mar como aventureiros para conquistar, guerrear e explorar a terra e os corpos. O colonizador senhor de engenho desbravava a terra, praticava a monocultura e quando a terra não servia mais simplesmente a abandonavam, sem amor ao cultivo.

A colonização do Brasil foi feita por homens que tinha a necessidade apenas de mais poder. Os filhos desses homens eram criados por duas mães, a mãe biológica e a mãe de leite, negra, que tinha o seu corpo permitido para ser explorado e os filhos dessas negras muitas vezes servia de “brinquedo” para os filhos desse senhor de Engenho. A mãe, “mulher do senhor” se resignava ao seu papel de senhora e também exploradora do trabalho escravo, mas vivia profundamente amargurada por ser apenas mais um corpo explorado.    

De acordo com Jung todos temos um aspecto feminino na psique, ele chama de anima que provém do latim e significa alma. Anima é a nossa parte representada pela mãe e no crescimento da criança a mãe tem a função de fazer voltar para si, isto é, voltar para as forças do inconsciente é o que vai fazer com que aprendamos a lhe dar com nosso lado inconsciente e irracional. Anima é a busca pela alma humana, para o self, para o âmago do ser, para o inconsciente assim como a terra que gera a vida e recebe de volta. Como diz Jung (p.73): a mãe é a protetora contra os perigos que o ameaçam do fundo obscuro da alma. A projeção da anima é passada pela figura feminina mais próxima a criança normalmente a mãe e a partir daí determinará a forma que a criança passará enxergar a figura da mulher. Como o filho do senhor de engenho tinha duas mães a mãe biologia e a mãe de leite escrava, então a imagem da mulher poderia sr projetada também pela negra escrava, isto é, um corpo que lhe era oferecido em casa para ser explorado. Por outro lado o filho da escrava negra via a mãe sendo explorada pelo senhorzinho e dessa fora reproduzia uma situação de servidão. De acordo com Caligaris (p.38): Se o colonizador oferece para a sua criança o fantasma de um corpo escravo licencioso que é metonímia do corpo da terra, ele transmite o mesmo fantasma para a descendência dos corpos que ele explora.    

A alma do povo brasileiro está marcada pelo o desprezo com a terra, o aspecto feminino, assim como a terra é geradora de toda a vida e local para onde a vida retorna, assim é a mulher e ambas não foram cuidadas e sim exploradas durante a formação da sociedade brasileira. O Resultado foi uma falta de identificação com o sentido de ser brasileiro filho dessa terra. Mãe terra e pai pátria, opostos e complementares, seriam importantes para a construção da alma brasileira simplesmente foram “omissos com os filhos”.

 

OS CAMPONESES E SUA RELAÇÃO COM A TERRA

 

Quando o “vós” se transforma em “coisa”, você já não sabe de que relação se trata. A relação do índio com os animais difere da nossa relação com eles, na medida em que vemos os animais como forma inferior de vida. Na Bíblia, somos informados de que somos os senhores da terra. Para os povos caçadores o animal é superior, em mais de um sentido.  (Campbell, p. 82)

 

O camponês que vive da terra estabelece uma relação de identificação com a natureza e seus ciclos assim como os índios e enxergam algo místico nos elementos da natureza. Para algumas tribos indígenas antes de caçar, pescar ou plantar eles reverenciam as forças da natureza, através de rituais pedem permissão para a entidade que representa aquele animal ou planta, mostrando um profundo respeito.

A identidade camponesa é revelada pelo seu modo de vida, pela cultura, pela sua religiosidade, afinidade com as pessoas, danças, comidas, costumes e modo de se relacionar com a natureza, pelo o jeito de produzir e cuidar da terra e pela forma que se relacionam com os frutos da terra que lhes são sagrados. Não diferenciam o trabalho da vida, a rotina tem uma profunda ligação com o cultivo das plantações e em algumas famílias camponesas todos trabalham na agricultura. A terra se torna um lugar de produzir e cuidar da vida e isso fornece um sentido maior a sua existência. Sua identidade está no jeito de viver e de estar em sintonia com a natureza, com a terra, com a terra brasileira. Observe esta poesia do Patativa do Assaré, Poesia sobre a Terra Brasil:

Eu sou de uma terra que o povo padece. Mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla. De riso na boca zomba de sofrer. Não nego meu sangue, não nego meu nome. Olho para a fome, pergunto o que há? Eu sou brasileiro, filho do nordeste. Sou cabra da peste, sou do Ceará.

 

Patativa do Assaré poeta, camponês tem orgulho de pertencer a esta terra a apesar do sofrimento causado pela falta de chuva e dificuldades na vida do campo, ele ainda sente orgulho de ser brasileiro. Tem uma profunda ligação de amor a terra natal, assim como Luiz Gonzaga em Asa Branca que teve que sair do sertão por causa da seca, mas promete retornar e ambos identificam a terra com uma figura feminina.

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Para eu vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus oios
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração
    

 

 

A guerra de Canudos liderado por Antônio Conselheiro de 1896 a 1897 na Bahia é um exemplo no Brasil de camponeses lutando contra o latifúndio e pela a esperança coletiva de construir um mundo novo, um mundo que fizesse sentido e para isso não poderiam concordar com a ordem vigente, onde a terra não era valoriza e dessa forma o sertanejo não ficou passivo diante de uma vida de infortúnios e adversidades, mas através de sua luta pela terra reivindicou o que queria para si, isto é, uma vida digna e não explorada. A religião católica estava presente em Canudos, mas de forma ressignificada pelos camponeses. Assim como a luta de Canudos, muitas lutas foram travadas pelo o povo brasileiro.

Infelizmente a mágoa de termos vivido num país onde as relações se dão pelo o personalismo onde apenas alguns sejam privilegiados e as leis não são feitas para funcionar deixando a maioria da população ainda numa situação de exploração e desamparo tenha causado uma vergonha e um constrangimento em ser brasileiro. 

Quando acontece um fato de repercussão abrangente através da mídia como violência, corrupção, incompetência, falta de estrutura nas instituições escuto vez por outra nas ruas comentários depreciativos em relação a ser brasileiro. Como exemplo, cito algumas frases escutadas por mim no dia-a-dia: só podia ser brasileiro mesmo; você não sabe que o Brasil é assim; é Brasil meu filho; ô paisinho miserável. Recentemente no dia 17 de outubro de 2008 ocorreu um seqüestro com o desfecho trágico resultando na morte de uma refém, a garota de quinze anos Eloá. Um brasileiro, Marcos do Val que dá aulas há nove anos para um grupo de elite da polícia americana preparada para enfrentar situações de emergência, a SWAT em Dallas, Estados Unidos, comentou o caso apontando vários erros da polícia brasileira em seguida solta a seguinte frase: “Foi um erro gravíssimo e eu sinto vergonha de ser brasileiro e saber que a polícia brasileira fez isso”. http://fantastico.globo.com .

Esse desprezo em ser brasileiro tem origem na formação da sociedade brasileira, é também um desprezo por si mesmo, por não se sentir protegido e amado como filho da terra Brasil.

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